27.6.05

hype

17.06.2005 | Comentando o verbete de ontem, alguém disse que o pessoal prefere falar Fashion Week porque em inglês o nome dessa quermesse superestimada, em que mulheres abaixo do peso desfilam roupas acima do preço, fica “mais hype”. Achei a explicação excelente, embora seu próprio autor não pareça ter compreendido inteiramente o alcance do que disse.

Do modo como é usada no Brasil, a palavra “hype” é a mais perfeita tradução de nossa anglofilia – espalhafatosa, cheia de deslumbramento mas, well, burrinha, coitada. Ao passar pela alfândega, hype fica quase irreconhecível: de substantivo vira adjetivo, e de palavra ácida, com conteúdo crítico, vira laudatória, festiva.

Em inglês, na acepção que vem ao caso aqui, hype quer dizer badalação excessiva, propaganda injustificada; histeria, zunzum ou falatório promovido com intenções comerciais em torno de um produto, modismo ou pessoa; engodo, mentira, fraude. Como se vê, é uma palavra funcional e, no atual estágio da cultura de massa, cada vez mais necessária para dar conta do mundo.

Entre nós é bem diferente: ser hype é simplesmente o máximo. Desaparece qualquer idéia de excesso ou mesmo picaretagem que o falatório possa ter e fica só a fama, o sucesso – fama e sucesso num certo grupo de eleitos, claro, e não com a massa. São Paulo, centro irradiador da palavra, vai na frente. “Marca hype anglo-brasileira de Londres estréia no SPFW”, dizia uma notícia do Uol há duas semanas, referindo-se ao São Paulo Fashion Week. “Pintar porcelana vira hype”, anuncia o blog da jornalista Erika Palomino. “Electro Hype Fair agrega conteúdo à megabalada”, apregoa o circunspecto “Estadão”. O Rio não quer ficar para trás e tem a Babilônia Feira Hype, que em parceria com o Viva Rio acaba de lançar a campanha “Ser Hype é Ter Responsabilidade Social”.

O mais curioso é que hype desempenha aqui exatamente o papel que, em inglês, cabe a uma palavrinha de grafia parecida, embora a pronúncia seja bem diferente: hip. Essa, sim, é um adjetivo e quer dizer, segundo o Webster’s, “sofisticado, esperto, ligado; que está na moda, cheio de estilo”. Coincidência? Não creio. Parece mais um caso clássico de ouvir o galo cantar ali e achar que foi mais adiante.

Há outras palavras que, ao serem importadas, passam por alguma deformação. Do ponto de vista estritamente lingüístico, isso é compreensível e até saudável. O estrangeirismo não deve fidelidade semântica ou gramatical à língua de origem. O falante o deforma porque, longe de ser um consumidor passivo de termos importados, é sujeito da sua própria linguagem, que fabrica com os ingredientes disponíveis sem se preocupar com a procedência.

Deve ser isso mesmo, embora me ocorra uma objeção, digamos, cultural que não tem merecido atenção suficiente: quanto de auto-estima rente ao chão, de ódio ao espelho precisa ter um sujeito para achar que um breakfast, só por ter esse nome, será sempre mais saboroso que um café da manhã?

Seja qual for a resposta, há na raiz do nosso uso de “hype” uma tontice que, por si só, pega meio mal: quem é hype, ou hip, não vacila assim.


fonte: a palavra é, do no.mínimo

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