5.7.08

1 ano

não gosto muito de ficar contando data, mas é quase impossível não lembrar da noite de 5 de julho, um ano atrás. eu tava do lado de casa, no café porteño, tomando a segunda long neck com colegas designers. tava tão bom o papo que decidi tomar a terceira pra ir pra casa.

bastou aquela long neck pra eu não ver nada acontecer. talvez tenha sido melhor assim. talvez, se eu não tivesse tomado aquela terceira cerveja, eu teria chegado em casa a tempo de ver meu irmão morrer. talvez aquele momento tenha sido somente pra ele e pra quem ele escolheu estar no momento da sua passagem, minha mãe. 

sempre que me lembro daquela noite, me dá um aperto no peito, um choro preso na garganta. um aperto por não ter podido dar um abraço de adeus. ao invés disso, um "vai se fuder" numa discussão boba que a gente tinha quase sempre. coisa de irmão. 

eu não sabia de nada enquanto estava no café porteño. ao final daquela terceira cerveja, me despedi do pessoal e fui pra casa. entrei em casa e senti tudo muito estranho: o gato correndo desesperado, nervoso, tv ligada e ninguém em casa. meu celular tinha ficado carregando. recebo 1 minuto depois uma ligação da minha tia, que estava no hospital com minha mãe. disse que rafa passou mal e que a coisa era grave. fui correndo pro hospital esperançosa de que ele sairia bem de qualquer situação. afinal, rafa sempre foi um touro.

a notícia foi minha mãe quem deu e tudo que eu conseguia dizer era "mentira! mentira!". aquilo não entrava na minha cabeça. não tinha jeito de eu arrumar as idéias e enfiar na minha cabeça que meu irmão tinha ido embora pra sempre. dar a notícia pro meu pai foi ainda mais difícil. eu não conseguia falar, ele não conseguia entender, tudo ficou confuso. eu só conseguia lembrar daquele "vai te fuder" que eu disse pra ele, minhas últimas palavras pro meu irmão que se foi.

hoje, um ano depois, não posso dizer que a ficha caiu completamente. não sei se eu não aceito o fato dele ter ido tão novo, ou por eu não ter conseguido dizer "eu te amo" mais vezes. lembro quando, em dezembro de 2005, eu fiquei sabendo da doença dele, liguei da praia de peroba, onde eu tava passando o fim de ano, e disse, chorando "rafa, se cuida, eu te amo muito... se cuida pra tu não morrer". ele riu e disse "eu vou me cuidar". 

acho que aquele foi o dia em que me despedi dele. devargazinho, ele foi indo. mas foi naquela noite de dezembro, um ano e meio antes, quando eu disse adeus a rafa.

não é fácil, acho que é impossível superar a morte de alguém que você ama, ainda mais da forma como rafa nos deixou. penso nele todo dia. sonho quase sempre e sempre é muito bom tê-lo em meus sonhos. e ele aparece de todo jeito, criança, velho, vivo e sempre sorrindo.

semana que vem ele faria 26 anos. provavelmente ele estaria com os dreads enormes e cheios de piolho. mas todo mundo amaria ele do mesmo jeito.

descansa em paz, irmãozinho, que a gente aqui vai aguentando as pontas.

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